É claro que aquilo era normal, as
pessoas dão bom dia umas às outras naturalmente como forma de manter e ampliar
seus círculos sociais, tal como projetar uma imagem de bonzinhos no subconsciente
dos outros. O que me espantou, foi ele ter me chamado de ‘senhor’, e mais do
que isso, eu ter achado isso natural à primeira vista.
Quando
é que eu aceitei que sou um senhor? Deve haver algum momento das nossas vidas
em que tudo muda, deixamos de ser o que éramos para nos tornar o que somos. Uma
mudança gigante, gritante, um caminho sem volta, que aceitamos de forma tão
sutil, que o dia se torna noite num piscar de olhos, sem que ninguém perceba.
Certa
vez li em algum lugar uma frase de alguém, que dizia: “nascemos molhados, pelados
e chorando. Então piora”. Pode até ser verdade, deve ser, mas eu sinto que a
cada segundo que passa, a cada suspiro, envelhecemos, definhamos, perdemos
algo. A primeira coisa que perdemos é a nossa inocência, de acreditar que o
mundo gira por uma razão, que temos um lugar nele e que as coisas são como nos
dizem ser. Essa perda nos torna rebeldes, porque não queremos acreditar na
verdade, e resolvemos todos que vamos mudar o mundo, com uma palavra, uma foto,
uma música. Mas perdemos essa batalha em algum momento, e junto com ela a
esperança.
Ocasionalmente
acabamos perdendo tudo, todas as nossas virtudes, tudo o que sempre dissemos
que nunca largaríamos. Nos tornamos ovelhas perdidas na vida, caminhando sem
rumo, rumo ao nada. Todos nós em algum momento, enquanto crianças, dissemos p’ra
nós mesmos que seríamos diferentes, que éramos diferentes, mas no final, abandonamos
nossos sonhos acreditando que acordar seria o mais saudável, o mais certo a se
fazer.
No fim
das contas, ninguém muda o mundo, ninguém sobrevive intacto à guerra da vida. O
mundo nos muda.
Eu acho
que a vida é assim mesmo, mas é uma pena que aqueles momentos gloriosos que nós
passamos, de acreditar no impossível e de ver mais cores que o mundo tem, já
não existem mais hoje. Não digo p’ra nós, porque os perdemos faz tempo, mas o
que nós éramos hoje não é, em ninguém. As crianças de hoje não têm inocência,
esperança, nada. Já nascem ovelhas, já nascem mortas.
Talvez
todo aquele tempo em que pensávamos em mudar o mundo, deveríamos ter pensado em
nos manter de pé, agüentar o tranco e guardar um pouco da magia que nós tínhamos
p’ra quem ainda não era.

Nenhum comentário:
Postar um comentário