quinta-feira, 21 de julho de 2011

Serotoniless.


Muitas pessoas que eu conheço fazem uso de anti-depressivos (anti-psicóticos, psicotrópicos em geral), o que é muito comum hoje em dia, mas acredito que nem sequer uma ínfima parcela destes conheça realmente seus efeitos e história. Logo, como bom samaritano que sou, vou falar um pouco sobre eles aqui.

Vamos partir do princípio, anti-depressivos não curam ninguém de nada, muito menos de depressão, que é uma insuficiência neurológica de serotonina, hormônio responsável por aliviar as dores emocionais, afetando os neurônios do indivíduo e provocando uma sensação de bem-estar. A depressão pode ser causada por factores biológicos (como uma incapacidade física de produzir o hormônio em sua quantidade certa, ou regular o mesmo), ou um factor externo, o que nós chamamos de "perda". Esta perda é emocional, pode ser desde um ente querido à um amor, emprego, objecto, membro... O anti-depressivo tem como função aumentar a produção da serotonina, mas não aliviar esta perda ou incapacidade biológica.

Para tornar as coisas mais fáceis, vamos fazer uma comparação simples e idiota: Troque "depressão" por "fome" e "anti-depressivo" por "Coca-Cola". Você pode beber grandes quantidades de refrigerante quando estiver com fome, assim seu organismo sentirá que o estômago está cheio, e a fome pode passar temporariamente. O problema é que isso não está matando a fome nem dando ao seu corpo o que ele precisa, apenas enganando seu inconciênte de forma que ele pare de sofrer.

Tratar da depressão biológica é algo muito complicado, mas também é muito raro, podemos nos focar na depressão mais comum, que nós vemos aqui e acolá? Para curar alguém dessa depressão, é preciso atacar a raiz dela, que é o sentimento de perda, o que pode ser feito de muitas formas, mas os psicoterapeutas estudam para isso, então o mais aconselhável é permitir que um faça esse trabalho.

Hoje a depressão está na moda, todos querem ter depressão, pois assim encontram desculpas para sua inércia, razões para se sentirem fracassados, mas não culpados. Diferente do que se imagina e se divulga hoje em dia, o número de pessoas com depressão não aumentou, apenas a capacidade se ser identificada, e as pessoas que erroniamente são rotuladas como depressivas, geralmente por sí mesmas ou pessoas próximas.

O uso de anti-depressivos faz com que a pessoa não se sinta triste, mas nunca pode tornar a vida de alguém melhor. É uma droga, e faz o mesmo que as outras: ilude o cérebro com hormônios. Os usuários de psicotrópicos se sentem bem, independente de como estão suas vidas, e raramente tomam alguma actitude para que ela melhore, pois se sentem confortáveis da forma que estão, e a dor é o que impulsiona mudanças, o que quebra a inércia. Estamos entrando na geração da Felicidade Artificial, uma geração marcada por hormônios de laboratório, comprimidos mágicos e pessoas dopadas, que andam pelas ruas como gazelas em uma planície rosa-bebê.

A terapia pode aliviar ou até mesmo acabar com o sentimento de perda, e pode usar de anti-depressivos no começo do tratamento para tornar o paciente mais calmo, mas o seu objectivo é cortar o uso das drogas desnecessárias, razão pela qual deve-se evitar psiquiatras, que não tem formação ou competência para tratar de maneira eficaz a depressão.

A história dos anti-depressivos é marcada por muitas confusões, sangue e uma das maiores vergonhas que a medicina já passou. Nos anos '30 um neurologista português, Egas Moniz, criou uma operação que chamou de "leucotomia pré-frontal", alegando que com ela podia aliviar males emocionais, e submeteu imediatamente vinte pacientes ao procedimento, de depressivos à esquizofrênicos. Sua falta de rigor, imprudência e, se me permitem a palavra, noção, foram ignorados pelo êxtase na comunidade terapêutica, e mais de dez mil operações foram feitas nos USA até 1949, além de mais dez mil nos dois anos posteriores, até que Egas Moniz recebesse o Prêmio Nobel. A operação era feita da forma mais primitiva e absurda que o imaginário podia alcansar, com a incisão de um picão de quebrar gêlo entre o globo ocular e a pálpebra, mechendo o lobo frontal de um lado para o outro. Os paciêntes (surpreendentemente) não morriam com o dano, mas ficavam debilitados psicologicamente, e "bobos" pelo resto de suas vidas. Chapados, dopados, eternamente. Ao contrário do que se imagina, o procedimento foi tido como um milagre e nunca foi censurado, até que os psicotrópicos vieram para substituí-lo, gerando um efeito semelhante, porém menos violento e reversível.

Sabe-se que o lobo frontal é responsável principalmente pela personalidade da pessoa, e mesmo tendo algumas outras funções, elas podem ser executadas por outras áreas do cérebro sem problemas. Danificando o mesmo, a pessoa perde sua habilidade de se destacar como alguém inteiro, e passa a ser pouco mais de um animal sem reflexão, vagando pela Terra com um corpo humano.

Bom, depois eu falo mais sobre esse assunto tão interessante, ao menos p'ra mim. :)
___________

P'ra quem não sabe, estou vivo, e bem, na base do possível p'ra um humano não-practicante vivendo no Brazil. :)

2 comentários:

  1. Excelente post,muito interessante,eu não tinha conhecimento de praticamente nada do que tu havia escrito,eu não uso anti-depressivos e não sabia como funcionavam no corpo humano,ah....isso também me gerou uma dúvida (uma dúvida boba,com certeza,mas vou escrevê-la mesmo assim) os outros animais também tem problemas emocionais iguais ou semelhantes ao dos humanos ? Aliás,adorei o exemplo dá coca-cola.

    Ei...será que dá para patentear essa aqui também : "A dor é o que impulsiona mudanças" ? : D

    Um grande abraço para ti,meu velho amigo.
    Que bom que você voltou.
    See ya later o/

    ResponderExcluir
  2. Têm sim, claro. É comum você ver um cachorro se recusando à comer porque o dono morreu ou algo assim, eles chegam à morrer de fome por depressão. Mas eu nunca ouvi dizer de ninguém que tenha tentado tratar um animal com anti-depressivos ou algum psico-trópico... Seria estranho. Hahaha

    Vou tentar postar bastante esses dias aqui, dar uma balanceada com os vários meses de teias de aranha. :O

    ResponderExcluir