segunda-feira, 26 de agosto de 2024

Y2K

 Tudo começou no milênio passado, mas perto do final dele.

Eu era apenas uma criança irritante, não muito diferente do que sou hoje, porém menor e mais ignorante, o dia era 31/12/1999 e eu estava me arrumando pra passar a festa de virada do milênio com a minha mãe no Clube Paineiras, embora a virada do milênio tecnicamente tenha sido entre 2000 e 2001 mas isso não importa pra ninguém.


O ar estava carregado de emoções à flor da pele, por um lado estávamos todos esperançosos por um tempo novo, um mundo novo, um calendário novo: a partir de então não precisaríamos escrever números maiores que 31 no canto superior direito das páginas de cadernos escolares por muito, muito tempo. Por outro lado tínhamos medo do bug do milênio, ouvimos tantas vezes que aviões cairiam dos céus, computadores deixariam de funcionar e bancos teriam seus dados apagados: dívidas e créditos, todos voltariam pra estaca zero. Outros iam além: diziam que o mundo acabaria. Por quê? Não sei, nunca soube, mas achavam e estavam prontos pra agir em suas crenças. Algumas semanas antes uns garotos mais velhos do condomínio estavam jogando bola comigo e conversando entre si: “se o mundo vai acabar na virada do milênio eu me recuso a morrer virgem”, “eu também”, disse eu, sem saber do que eles estavam falando direito. Eu teria morrido virgem como um azeite caro.


Chegando na festa, eu era uma criança boba como algumas outras: filhos da nata paulista, donos do futuro da nação, o Brasil ainda era o país do futuro naquela época, “eu sou brasileiro e não desisto nunca”, diria a TV em alguns anos até mudar pra “o Bostil venceu”, mas esse em outra tela. Olhando ao redor eu vi essas outras crianças, felizes, bem vestidas, tímidas, éramos bomba relógio esperando pra explodir um pouco antes dos fogos. Se eu prestasse mais atenção no movimento de rotação do planeta eu saberia que o mundo já tinha acabado no Japão há dez horas.


Depois de alguns minutos alguma criança rompeu o embargo e começou a brincar, gerando uma reação em cadeia irreversível: todos estavam brincando. Eu gosto de pensar que fui eu essa criança, mas provavelmente não fui. Algumas mães diziam pra sua prole com palavras duras: “se comporte!”. A minha não dava a mínima.


Uma dessas crianças era uma garotinha loira de olhos azuis, linda, eu acho que brinquei com ela.


2000 chegou e se foi, o mundo não acabou, o bug do milênio foi irrelevante, bilhões de dólares bem gastos se preparando pra algo que não existia.


Agora estamos em 2023, a vida não foi muito gentil comigo, mas podia ser pior: cicatrizes e traumas aparte, nenhum membro foi perdido no processo, só um órgão sobressalente. O dia é 30/06 e eu estou conversando com uma garota pela internet, ela me diz que vai viajar dois dias depois pra França, depois Inglaterra. “Estive nos dois, brevemente” eu disse. Era verdade. “Já que você vai viajar, o que acha de sair comigo antes? Que tal hoje?”, imaginei que a resposta seria “hahaha, não” mas ela disse que sim. Nice. Ela sugeriu um bar perto da casa dela e eu fui até lá, tomei um drink enquanto esperava pela atrazilda, então ela chegou. Linda, maravilhosa, eu a cumprimentei e sentamos à mesa, escolhi um vinho e começamos a conversar. A cada tópico novo eu precisava me beliscar pra ter certeza que não estava sonhando: estudamos na mesma escola, mas em anos diferentes, eu voltei de Londres logo antes dela ir pra lá, frequentamos as mesmas festas, mesmo shopping, mesmo cinema, mas acima de tudo, passamos a virada do milênio juntos, duas crianças bobas mas alegres com os mesmos fogos de artifício iluminando seus olhos, lado à lado. Todas as coisas ruins da vida pareceram inconsequentes, todos os relacionamentos tóxicos, todas as doenças, todas as dores: meh.


Uma garrafa de vinho depois o destino já estava muito bem decidido, eu precisava passar o resto da minha vida com aquela garota fantástica, eu precisava fazer ela sorrir todos os dias pra conseguir dormir bem de noite.


A Carol não é apenas linda, maravilhosa, perfeita e a melhor namorada do mundo: eu sou a densidade dela.


O mundo ganhou cores que eu não sabia que existiam, vida dura de daltônico. Ganhou uma dimensão que caolho nenhum pode entender. Com ela é tudo azul, mas sem ela eu fico blue. Eu aprendi o que é amor verdadeiro, o que é companheirismo, felicidade, hoje eu tenho uma vida, tenho sonhos, sou mais uma vez um bobo alegre ansioso pelo novo tempo, novo mundo, novo calendário: Antes da Carol e Durante da Carol, não vai ter um depois.




sábado, 13 de julho de 2013

Rise like a drunken fenix! RAISE!


Olá people! Eu sei que esse blog está morto e enterrado, mas como zumbis estão na moda, foda-se.

Eu não tenho mais paciência p'ra escrever coisas p'ra colocar aqui e ninguém ver, mas uma coisa que eu posso fazer é reunir besteiras que eu postei em outros lugares como Facebook e colocar aqui, o que espero que dê uma movimentada boa.

Eu não vou postar tudo de uma vez porque não teria graça, mas já aviso que nada disso é novo, à menos que eu diga que é!
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Eu queria sair, não, eu precisava sair.

Minha irmã me ligou falando sobre uma balada gótica no centro da cidade que ela queria ir. Não era muito bem a minha praia, mas eu não podia deixar minha irmãzinha alone entre um bando de satanistas sacrificando frangos virgens ou seja lá mais o que eles fazem.

Nos encontramos no metrô, minha irmã um amigo dela e eu, e então fomos até a estação mais próxima. Perguntei onde ficava o lugar mas ela não sabia. Droga, por que elas fazem isso? Vi um grupo de adolescentes vestidos com os mais diversos tons de preto que existem. Perguntei se estavam indo pro tal bar e disseram que sim. Fomos juntos e depois de uma curta caminhada chegamos no tal lugar.

Logo de cara não gostei muito de lá, mas quem sou eu p'ra reclamar, e eu já estava lá mesmo, paguei a taxa de malditos vinte reais e entrei. Não era um bar, parecia um salão de festas infantis sem os brinquedos, me deram uma pulseira que brilhava no escuro e um Vale Absinto. Uma dose.

Isso não vai me abastecer, pensei, talvez uns dez metros. Olhei em volta, haviam adolescentes de vários tipos. Bom, talvez 'vários' seja uma palavra muito forte, haviam 'dois' tipos: um tinha cabelo longo e preto, com roupas pretas e correntes, aparentemente sem utilidade práctica. O outro tinha cabelo colorido e roupas rasgadas, máscara de gás no rosto, talvez com alguma utilidade.

Não havia banda, o que me deixou decepcionado. Eu paguei vinte reais p'ra ver um bando de adolescentes? Posso fazer isso de graça na saída de uma escola, embora eu talvez fosse preso... isso soou melhor na minha cabeça. Aproveitei que apenas eu queria o Absinto e peguei os vales deles. Comprei uma dose de Whiskey p'ra suportar aquilo, toda aquela juventude, aquilo me enojava. Dentre todos aqueles animais soturnos estava eu, camisa vinho de mangas longas e jeans, além do meu cabelo com uma mecha amarela malfeita do lado. Virei a dose.

Observei mais um pouco aquilo tudo, como um antropólogo que chega em uma ilha perdida. Peguei mais uma dose de Whiskey. Eles vinham no mesmo lugar, pagavam o mesmo tanto p'ra ficarem confinados em um quarto escuro ouvindo as mesmas músicas em uma caixa de som barata. Mesmo assim, eles não se misturavam, os dois grupos, eram como pingüins e ursos polares, embora bem mais próximos. Virei a dose.

Precisava maneirar, peguei uma cerveja. A música não me agradava, ela me deixava depressivo. Não, ver ela deprimindo aqueles adolescentes me deprimia. Isso. Agora, que eu já estava começando à me sentir intoxicado, eu podia ignorar a homogeneidade daquelas pessoas e procurar um alvo, mas acabei desistindo disso também, as máscaras de gás não me permitiam saber direito com o que eu estava me metendo, e normalmente já era difícil distinguir os cromossomos de lá, todos tinham aquele cabelo comprido e preto, liso, ou aqueles cabelos coloridos como um arco-íris bêbado. E os homens não tinham barba, e tinham uma voz muito fina. Eram todos ou muito magros ou muito gordos. Terminei duas cervejas enquanto pensava nisso.

Eu já estava lá há algum tempo, e mesmo sabendo que eu precisava ficar lá até de manhã p'ra poder pegar o metrô e levar minha irmã embora em segurança, eu também estava cansado de ir até o "bar", então pedi as três doses de Absinto de uma vez, usei minhas incríveis habilidades de segurar copículos entre os dedos e voltei p'ra algum canto levemente isolado.

Alguns deles dançavam, era triste. Eles ficavam de pé no meio do caminho com os olhos fechados e as cabeças caídas, os ombros caídos, as morais caídas... e eles trocavam o peso do corpo de um pé pro outro, às vezes giravam um pouco com os braços, caídos.

Virei a primeira dose.

Então eu estava em uma rede, ou algo que parecia uma. Eu me sentia afundado, como se estivesse em uma rede mesmo, e ela me abraçava. Tentei abrir os olhos, uma luz muito forte me cegou e mesmo fechar os olhos não fez ela passar, mas depois de alguns instantes ela passou e eu tentei abrir os olhos de novo, estava um pouco melhor, a luz vinha da janela por dentre a persiana, algo me dizia que era o sol. Eu não tinha uma janela, muito menos uma persiana, aquilo não era um bom sinal. Olhei pro teto. Um ventilador. Eu também não tinha um, mas à essa altura eu já esperava algo assim.

"Você devia olhar pro lado", pensei.

Respirei fundo, minha cabeça doía. Olhei pro lado e vi um amontoado de cabelos castanho escuros, ondulados. "Espero que não tenha mais cabelo em lugar nenhum". Olhei um pouco mais p'ra baixo. Costas, ou melhor, costas sem pelos. Ok. Mais p'ra baixo. Enfim, os únicos outros pelos que eu encontrei foram nas sobrancelhas e cílios. O que diabos? O pior já passou, então à menos que tenha um anão bem dotado desmaiado no banheiro está tudo bem. Tentei me lembrar de algo. Onde eu estava? Não lembrei. Quem era ela? Não lembrei. Quem era eu? Isso eu lembrava. Menos mal.

Location, location, location.

Delicadamente tentei me levantar da cama, mas ela estava quebrada então ficava me jogando p'ra dentro o tempo todo, p'ra cima da garota. Ela não acordou, coloquei minha mão em seu pescoço p'ra sentir sua pressão, não senti nada, mas estava quente. Na pior das hipóteses era um coma, coisa que me livraria de uma situação embaraçosa, ou me colocaria em outra, caso alguém me visse saindo do quarto.

"É tudo circunstancial", "ninguém pode me acusar de nada". "Ou pode, não me lembro direito se crimes circunstanciais são bons ou ruins agora".

Minha cabeça doía.

Consegui sair da cama, a garota respirou fundo e virou pro outro lado, se embrulhando no cobertor.

Ok, se isso for coma deve ser o mais activo da história.

Procurei minhas roupas, vesti de qualquer jeito e fui pro banheiro, me olhei no espelho. "Parece que você apanhou essa noite, nunca vi um rosto tão vermelho, olhos tão vermelhos". Na minha camisa havia marca de algum fluido estranho, como se eu tivesse babado ele. Eu precisava saber onde eu estava, fui até a janela do quarto, antes de puxar um pouco a persiana respirei por um segundo de olhos fechados. Puxei, nunca fiquei tão feliz de não ver o Coliseu, a Torre Eiffel ou a Estátua da liberdade, mas ainda não sabia onde eu estava. O céu e as nuvens eram familiares, mas eles são assim em todo canto. Então eu lembrei da minha irmã, droga.

Procurei meu celular no bolso, havia um SMS não lido. Abri e dizia "Cheguei bem :)", remetente Sis. Ok, ok...

Eu ainda tinha um corpo nu em uma cama quebrada, minha perna estava doendo bastante e eu não entendia muita coisa, Me senti lendo um livro em russo ou algo do tipo, talvez alemão.

quinta-feira, 11 de outubro de 2012

Somewhere in the middle



 Hoje de manhã, andando pela rua deprimido, um ‘senhor’ me disse com um sorriso no rosto “bom dia, senhor”. Automaticamente respondi, mas fiquei pensando em como eu podia achar aquilo natural, algo ‘normal’...

É claro que aquilo era normal, as pessoas dão bom dia umas às outras naturalmente como forma de manter e ampliar seus círculos sociais, tal como projetar uma imagem de bonzinhos no subconsciente dos outros. O que me espantou, foi ele ter me chamado de ‘senhor’, e mais do que isso, eu ter achado isso natural à primeira vista.

Quando é que eu aceitei que sou um senhor? Deve haver algum momento das nossas vidas em que tudo muda, deixamos de ser o que éramos para nos tornar o que somos. Uma mudança gigante, gritante, um caminho sem volta, que aceitamos de forma tão sutil, que o dia se torna noite num piscar de olhos, sem que ninguém perceba.

Certa vez li em algum lugar uma frase de alguém, que dizia: “nascemos molhados, pelados e chorando. Então piora”. Pode até ser verdade, deve ser, mas eu sinto que a cada segundo que passa, a cada suspiro, envelhecemos, definhamos, perdemos algo. A primeira coisa que perdemos é a nossa inocência, de acreditar que o mundo gira por uma razão, que temos um lugar nele e que as coisas são como nos dizem ser. Essa perda nos torna rebeldes, porque não queremos acreditar na verdade, e resolvemos todos que vamos mudar o mundo, com uma palavra, uma foto, uma música. Mas perdemos essa batalha em algum momento, e junto com ela a esperança.
 
Ocasionalmente acabamos perdendo tudo, todas as nossas virtudes, tudo o que sempre dissemos que nunca largaríamos. Nos tornamos ovelhas perdidas na vida, caminhando sem rumo, rumo ao nada. Todos nós em algum momento, enquanto crianças, dissemos p’ra nós mesmos que seríamos diferentes, que éramos diferentes, mas no final, abandonamos nossos sonhos acreditando que acordar seria o mais saudável, o mais certo a se fazer.

No fim das contas, ninguém muda o mundo, ninguém sobrevive intacto à guerra da vida. O mundo nos muda.

Eu acho que a vida é assim mesmo, mas é uma pena que aqueles momentos gloriosos que nós passamos, de acreditar no impossível e de ver mais cores que o mundo tem, já não existem mais hoje. Não digo p’ra nós, porque os perdemos faz tempo, mas o que nós éramos hoje não é, em ninguém. As crianças de hoje não têm inocência, esperança, nada. Já nascem ovelhas, já nascem mortas.

Talvez todo aquele tempo em que pensávamos em mudar o mundo, deveríamos ter pensado em nos manter de pé, agüentar o tranco e guardar um pouco da magia que nós tínhamos p’ra quem ainda não era.

sexta-feira, 8 de junho de 2012

Puzzles




Naquele momento ele entendeu que as pessoas eram reais, e por um instante ou dois, ele poderia roubá-las do tempo, com um disparo escreveria uma estória, com um pouco de luz e um pouco de sombras.


Então houve tudo o que era necessário: movimento e vida, e o tempo se congelara para sempre, em um capítulo de si mesmo, enquadrado como uma peça de um quebra cabeças grande demais para se entender o que era, até que fosse montado.


O sol nasceu e se pôs ao menos dez vezes antes que as peças começassem à encaixar, pouco à pouco, peça após peça. Os dias viravam noites, e as noites viravam dias mais claros ainda, mas o tempo nunca parava, ao menos não fora daquelas pequenas gravuras, tingidas à luz.


Mas o quadro nunca estaria complecto, porque cada peça que nascia afastava mais a moldura, sem que ele percebesse. E anos se passaram, como gotas d'água em uma tempestade. Ele viu seu relógio fazendo tic-tac, e ficou alguns segundos acompanhando aquele ponteiro vermelho e fino, girando devagar, mas ainda assim mais rápido do que ele gostaria, e cada segundo que passava, cada movimento do ponteiro, era um segundo que nunca mais voltaria, era uma peça perdida.


Então ele entendeu que não haveria fim, porque as estórias de verdade nunca acabam, nós é que paramos de acompanhá-las.